domingo, 20 de outubro de 2013

De onde vem os bebês?

Quando minha irmã Rose (Roseli)  nasceu, eu tinha quatro anos, mas me lembro da parteira chegando em casa com sua maleta e entrando no quarto onde estavam somente mulheres e adultas. De repente um choro de criança invadiu a casa e foi anunciado que minha irmã havia nascido.

Eu vi aquela mulher com sua maleta deixar nossa casa assim como entrou e ninguém me tirava da cabeça que ela havia trazido aquele bebê dentro da maleta, mas não disse nem perguntei nada à ninguém, pois criança não perguntava nada sobre coisas de adultos e o nascimento dos bebês era coisa de adultos.

Minha irmã foi crescendo e sua cor era mais escura que a minha. Claro, papai tinha pele morena e cabelos crespos. Era descendente de negros. E minha irmã trazia a cor dos nossos antepassados negros enquanto a minha pela era branca como a de mamãe. Mas quem disse que criança de seis, oito anos entende de descendência? Para mim tudo se explicava da seguinte maneira: aquela mulher que trouxera minha irmã na maleta era a mãe dela e a minha mãe era somente minha e de meus irmãos. Por isso, quando brigávamos, eu lhe dizia:

_ Você não é minha irmã!

Quando voltávamos da roça, de carroça, no final da tarde, passávamos pelo rio no qual uma mulher morena lavava roupa. Eu não perdia a oportunidade de dizer à minha irmã:

_ Olha a sua mãe lá no rio. Foi ela que trouxe você na maleta. Minha irmã olhava para a mulher indiferente ao que eu dizia.

Um dia eu decidi que minha irmã seria branca como eu. Então ordenei:

_ Fique aí no sol, depois que sua pele sair, você será branca como eu.

Ela obedeceu como se fosse uma brincadeira e, no final da tarde, quando mamãe voltou da roça, ela estava tão queimada que dava dó. E eu não compreendi, no dia seguinte, por que minha irmã estava mais preta ainda.

Só mais tarde, quando conheci o mar, entendi o benefício de se ter a pele morena. Minha irmã se bronzeava facilmente ao sol, enquanto eu ia à praia e voltava um pimentão e ardendo feito pimenta.