quinta-feira, 8 de maio de 2014

Minha mãe

Quero homenagear minha mãe neste mês de maio dizendo o quanto eu a amo e  admiro pelo exemplo de ser humano que ela é e pelo quanto nos ensinou a ser pessoas de bem, honestas, pessoas de princípio. Ao lado de papai, ela dedicou sua vida à família, criando os filhos e sendo para o meu pai e para nós o porto seguro onde certamente encontramos apoio, força, generosidade, afeto. Sempre foi uma mulher de fibra e suas palavras sempre foram  ouvidas e acatadas por papai.

Lembro-me de quando ainda morávamos em Ribeirão Grande e, numa de nossas plantações de tomate, perdemos tudo. Nossos tios que já moravam em Sorocaba sugeriram que viéssemos também tentar a vida na cidade. Papai e mamãe conversaram e decidiram que mandariam meu irmão mais velho, Carlos, na frente. Ele moraria com meu tio e, quando já estivesse empregado, viríamos todos nós para a cidade grande. 

Nesse intervalo, papai conseguiu um empréstimo para plantar uma nova safra e, nesta, ele ganhou dinheiro suficiente para pagar todas as dívidas e ainda sobrou para continuarmos plantando. Papai sugeriu, então,  que ficássemos na roça, que continuássemos plantando e colhendo e vivendo a vida que tínhamos. Homem nascido e criado no campo, lidando com a terra, talvez ele se sentisse inseguro em   mudar de vida de maneira tão profunda.  Mas mamãe fez pé firme e não aceitou. Disse que não queria mais aquela vida incerta em que um ano se ganhava e no outro perdia-se tudo. Argumentou sobre as possibilidades de trabalho que os filhos teriam na cidade e que no campo jamais poderiam fazer algo que não fosse lidar com a terra. Na cidade, poderiam estudar, ser alguém na vida! Papai  não teve argumentos que convencessem a família a ficar no campo e foi assim, graças as palavras de mamãe que nos construímos as pessoas que somos hoje. 

Tenho orgulho de minha origem e tenho orgulho de mamãe e de sua força na condução desta família numerosa que eu tanto amo.

domingo, 20 de outubro de 2013

De onde vem os bebês?

Quando minha irmã Rose (Roseli)  nasceu, eu tinha quatro anos, mas me lembro da parteira chegando em casa com sua maleta e entrando no quarto onde estavam somente mulheres e adultas. De repente um choro de criança invadiu a casa e foi anunciado que minha irmã havia nascido.

Eu vi aquela mulher com sua maleta deixar nossa casa assim como entrou e ninguém me tirava da cabeça que ela havia trazido aquele bebê dentro da maleta, mas não disse nem perguntei nada à ninguém, pois criança não perguntava nada sobre coisas de adultos e o nascimento dos bebês era coisa de adultos.

Minha irmã foi crescendo e sua cor era mais escura que a minha. Claro, papai tinha pele morena e cabelos crespos. Era descendente de negros. E minha irmã trazia a cor dos nossos antepassados negros enquanto a minha pela era branca como a de mamãe. Mas quem disse que criança de seis, oito anos entende de descendência? Para mim tudo se explicava da seguinte maneira: aquela mulher que trouxera minha irmã na maleta era a mãe dela e a minha mãe era somente minha e de meus irmãos. Por isso, quando brigávamos, eu lhe dizia:

_ Você não é minha irmã!

Quando voltávamos da roça, de carroça, no final da tarde, passávamos pelo rio no qual uma mulher morena lavava roupa. Eu não perdia a oportunidade de dizer à minha irmã:

_ Olha a sua mãe lá no rio. Foi ela que trouxe você na maleta. Minha irmã olhava para a mulher indiferente ao que eu dizia.

Um dia eu decidi que minha irmã seria branca como eu. Então ordenei:

_ Fique aí no sol, depois que sua pele sair, você será branca como eu.

Ela obedeceu como se fosse uma brincadeira e, no final da tarde, quando mamãe voltou da roça, ela estava tão queimada que dava dó. E eu não compreendi, no dia seguinte, por que minha irmã estava mais preta ainda.

Só mais tarde, quando conheci o mar, entendi o benefício de se ter a pele morena. Minha irmã se bronzeava facilmente ao sol, enquanto eu ia à praia e voltava um pimentão e ardendo feito pimenta.




domingo, 21 de abril de 2013

A escolha do meu nome

Minha mãe e minha avó eram muito religiosas e escolheram para mim o nome de uma santa "Terezinha". No entanto cabia ao pai a função de ir até o cartório registrar os filhos. No momento do registro, meu pai mudou meu nome par Leila, talvez pela fama da atriz Leila Diniz. (http://educacao.uol.com.br/biografias/leila-diniz.jhtm) Invejada e criticada pela sociedade conservadora da época, a atriz escandalizou essa mesma sociedade exibindo sua gravidez de biquíni na praia. Isso era impensável para a mulher grávida que jamais mostrava sua barriga. Muitas vezes nem os filhos mais velhos sabiam da gravidez da mãe. Não era assunto para crianças. E elas, as crianças, acreditavam em Papai Noel assim como acreditavam que as cegonhas traziam os bebês.

Mas, voltando ao meu registro, meu pai, para não desagradar minha mãe nem minha avó, acrescentou ao meu nome outra santa. Assim fiquei sendo Maria Leila.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Meu nascimento

Minha mãe já tinha três filhos "homens" quando ficou grávida de mim. Ela conta que, desde sua segunda gestação, esperava por uma menina que só chegou na quarta gravidez. Naquela época, 1964, em Ribeirão Grande, cidade rural do interior de São Paulo, não havia ultrassonografia, sequer as mães faziam pré-natal para assegurar-se de que tudo estava bem com ela e com o bebê. É por isso que se dizia que a mulher grávida tinha um "pé na cova", pois eram muitas as mortes tanto das mães quanto dos bebês durante a gestação ou durante o parto que era feito em casa, por parteiras. Então, o sexo do bebê era um segredo só revelado no momento do parto.

Foi em 20 de janeiro de 1964 que o segredo foi revelado e eu vim ao mundo trazendo alegria para minha família de maioria masculina. Agora éramos três mulheres: minha avó paterna que sempre morou com meus pais, minha mãe e eu.

Hoje somos sete irmãos. Os homens ainda predominam. São quatro.

Minha família reunida é sempre uma festa. É muita conversa, muita risada, muita diversão.






Origem deste blog

Este blog teve início com a leitura do livro Transplante de Menina de Tatiana Belinky.

Foi assim: comecei a ler este livro para meus alunos da 7ª série (8ºano) e propus que cada aluno escrevesse textos de memória e disse-lhes que eu também escreveria alguns. Quem quisesse, poderia ler seus textos para a classe, conforme fosse escrevendo. Eu me propus a escrever também as minhas memórias e também leria em classe para que eles conhecessem um pouco da minha infância. Assim começou a escrita dos textos deste blog.